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Certa vez, ao publicar uma foto no instagram, escrevi sobre minha experiência ao consumir roupas de brechó / bazar e o fato de meu armário hoje em dia ser quase que 80% de roupas que vieram de um garimpo, em feiras de antiguidades, brechós e bazares. Muita gente ainda se choca quando eu digo que tal peça é de brechó e a outra também. Essa forma de consumir moda e roupa ainda é muito diferente do que habitualmente vivemos, é claro que naturalmente existe muita curiosidade sobre esse assunto e no decorrer da minha publicação escrevi como era uma nova possiblidade de consumo, de descobrir peças de roupa e etc. Pouco tempo depois, recebi uma mensagem de uma pessoa muito querida para mim, me apontando que esse lance de comprar de brechó não é só sobre tentar e experimentar, porque ela havia experimentado e não encontrava roupas no seu tamanho. 


Na hora, me atentei que minha postagem poderia ter sido opressora para minas mais gordas. Eu poderia ter ficado ali me sentindo culpada e triste, mas decidi fazer diferente, decidi trazer uma perspectiva diferente do que me é vivenciado, por ser uma mulher dentro do padrão. Chamei a Flavia, que muito carinhosamente me corrigiu e pedi para que ela participasse comigo dessa conversa que agora estamos tendo. Não queria que parasse em uma conversa apenas de DM, é importante que todes nós, venhamos a nos atentar que a industria da moda é super opressora, portanto, as dificuldades para se vestir para uma mina que é fora do padrão é uma pauta importante para ampliarmos nossa mente e mudarmos essa estrutura tão opressora. Ampliar, conhecer, normalizar e cobrar postura das marcas e até mesmo cobrar atitudes políticas, porque sim, no fim o patriarcado vence com essa invisibilidade que existe. Não podemos nunca esquecer que falar sobre mulher e moda não é fútil e que estamos falando de corpos que sofrem pressões absurdas, no fim, falamos sempre sobre política.


No capítulo 4 do Livro Use a Moda ao seu favor da Carla Lemos, página 75 temos um trecho que diz :


(…)

” A moda como a gente a conhece cresceu e se desenvolveu no patriarcado, um sistema pautado na opressão de gênero e de liberdades sexuais. É como Naomi Wolf fala : não é sobre a aparência. É sobre determinar o comportamento das mulheres. Através de suas imagens, os tamanhos oferecidos nas lojas e até a escolha de seus modelos, a moda define a relação das mulheres com seus corpos e com o mundo. ” (…) “Moda é um efetivo sistema de controle. Exércitos sempre tiveram uniformes porque essa era uma forma de tirar a individualidade das pessoas para induzir todos a agir com o mesmo foco. Por estar tão próxima do nosso corpo, como uma segunda apele, a moda é fator importante de integração social.”

Vale lembrar que o consumo de brechó e bazar é válido, mas as experiências são gritantes e distintas, tendo em vista que por si só as lojas grandes de fast fashion e demais lojas não produzem roupas de tamanhos maiores (e, gente 44 não é tamanho maior!!), sendo assim para que peças de tamanhos maiores cheguem nos brechós e bazares é muito mais difícil. Essa forma de consumir é diferente quando se tem um corpo magro e um corpo gordo, porque infelizmente a indústria ainda não se atentou ao fato de que existe poder aquisitivo para esse mercado e que deveria ser o NORMAL termos todos os tamanhos em todas as lojas. Enquanto isso não acontece, vamos seguir questionando e cobrando. Mas, chega de papo e vamos conhecer a Flavia e deixar que ela conte a sua narrativa como uma mulher gorda e sobre suas dificuldades ao consumir roupas e criação de seu estilo, e armário.


TTUM – toda terça uma mina.

uma conversa sobre a dificuldade de mulheres gordas ao consumir moda com Flavia Pinheiro


Clarinha : Flavia, eu já conheço você e me é um prazer tê-la aqui para conversar sobre esse assunto, quando você me abordou eu senti que era meu papel não só aprender, mas compartilhar a sua voz para que outras mulheres possam aprender, entender e ampliar suas mentes. Mas, antes de começarmos de fato essa conversa, queria pedir para você contar um pouco sobre você, quem você é, sua profissão etc. 


Flavia : Essa pergunta, talvez, seja a mais difícil de responder. Eu tenho 36 anos, até os 17 anos vivia muito bem com o meu corpo e era raro me ver de salto, maquiagem, vestido, resumindo, coisas ditas como femininas. Meu corpo era de uma pessoa que exercitava muito, desde os 3 anos de idade nadava. Resumindo: Nadei dos 3 aos 17 anos initerruptamente. As vantagens são inúmeras, mas as desvantagens são pouco comentadas… Desenvolvi o peitoral e a musculatura dos membros superiores, absurdamente. Só fui apresentar mamas aos 17 anos o que foi um “pouquinho” traumático. Dos 17 aos 22 anos, algumas crises de identificação por conta dos padrões sociais estabelecidos, o que fizeram fazer compras equivocadas, esse crescimento abrupto de mamas (menos de um ano, de top para tamanho 44) foi o grande BOOM. A formação acadêmica que não encaixei, gerou alguns gatilhos para uma alimentação pouco balanceada e alguns quilos surgiram o que dificultou bastante o contexto. Como 23 anos, algumas mudanças foram se mostrando palatáveis e possíveis. A principal, não me importar com o que os outros pensam a meu respeito. Desde então, me casei, conclui a faculdade de enfermagem, e, atualmente, estou vestibulanda para medicina.


Clarinha : Como uma mulher gorda, quais as suas dificuldades reais oficiais na hora de sair para comprar roupa?


Flavia : Já foi muito desgastante, principalmente, quando eu era completamente desproporcional. Hoje, eu penso: preciso de tal roupa, para tal ocasião. Saio de casa ou compra virtual com isso bem determinado e vou a busca, sem muitos rodeios. Em lojas físicas: não me atrevo a ir em lojas que não respeitam a diversidade dos corpos, pois sei que vou me irritar e não vou conseguir comprar o que preciso. Em lojas online: uso filtros e coloco no carrinho o que gostei, mas só finalizo a compra no dia seguinte, isso evita compras desnecessárias.



Clarinha : Sei que ao longo do tempo, esse mercado que chamamos de plus size aumentou um pouco e que antes era muito mais difícil encontrar roupas diferentes para mulheres gordas, hoje em dia vemos lojas como a posthaus que vendem roupas plus size, até o tamanho xxg, mas nem sempre foi assim. Você sente que houve uma melhora? E o que você acha que falta para que o mercado amplie ainda mais sua grade de numeração?


Flavia : A melhora foi significativa. Existiu um tempo que para comprar um sutiã preto para o meu tamanho, eu tinha que ir até a fábrica em Nova Friburgo. Atualmente, as lojas estão mais antenadas para a necessidade e para o mercado. Uma coisa importante que eu aprendi e que ainda hoje é verdade, no Brasil não existe padronização de tamanho. Essa falta de moldes unificados é uma falta de respeito com TODOS. Pessoas altas, baixas, gordas e magras sofrem, isso não é um exagero.


O mercado não amplia sua grade de numeração porque não existe uma reivindicação consistente. Enquanto existir mais propagandas de shakes emagrecedores do que roupas confortáveis e atuais, pessoas irão se apertar em calças que não fecham para se sentirem pertencentes.


Clarinha : Às vezes, tenho a sensação de que mesmo que existam lojas ainda é muito difícil para mulheres gordas que procuram peças muito diferentes ou específicas. Nossos estilos são plurais e ainda falta muito para o mercado atender as reais necessidades das minas gordas, com estilos diferentes (e aqui, entra aquela mina que é super estilosa/ minimalista, que vai atrás das tendências ou procura peças atemporais).


O que você acha que falta no mercado? E mais intimamente falando, sobre sua perspectiva pessoal, existe alguma peça que você gostaria MUITO de adquirir, mas ainda não encontrou? Se sim, qual? Conta para gente. 


Flavia : O mercado precisa de boicotes. Não tem preto, FORA! Não tem gordo, FORA! Não tem portadores de deficiência, FORA! Não tem LGBTQIA+, FORA! Você pode pensar que iríamos andar pelados, só que não. Iríamos dar visibilidade aos que vivem para se encaixarem nos quadrados nada flexível do mercado. Talvez, por não ser tão ligada à moda, não falte nada no meu armário. Ou por está tão engessada nos padrões. Vai saber, né?!


Clarinha : O que você leva em conta quando vai comprar alguma peça de roupa para você? 


Flavia : Eu sou muito exigente, nunca é apenas um item. Então, vamos ao checklist: qualidade do material, conforto, datada ou não, versatilidade.



Clarinha : Entrando no assunto em que rendeu essa conversa, se no mercado comum, como lojas de departamento e outras lojas é difícil encontrar peças no tamanho e modelagem certa, no brechó é muito mais difícil. Conta para gente como foi a sua experiência indo em brechó. 


Flavia : Brechó para pessoas gordas? Acessórios, bolsas, sapatos. Pode isso parecer besteira, mas se pode encontrar acessórios que viram verdadeiros trunfos no armário de uma mulher gorda.


Clarinha : É claro que você teve que ir atrás para poder conseguir as peças que tanto deseja, têm alguma dica que você possa dar para minas gordas, tanto de lojas quanto de pesquisa para encontrar o que você procura?


Flavia : Eu acho que a principal dica é a moda existe para te satisfazer. Ela é própria de cada pessoa. Eu disse que não sou muito ligada a moda, mas faço aqui uma ressalva gosto de coisa simples e confortável. 


Clarinha : Por fim, o que você espera daqui para frente no setor de moda, como consumidora?


Flavia : Um sonho de princesa: MOLDES ÚNICOS!!!

Finalizamos a entrevista de hoje do TTUM e desse projeto que me é tão especial! Espero que vocês tenham gostado e tragam mais debates e ideias para os comentários, comentem a experiência de vocês e sua relação com a moda, se você é uma mina gorda e quiser trazer mais ideias para esse campo, abro esse espaço para que possamos aprender com você. Sinta-se acolhida nesse espaço.

+ M A I S :
  1. TTUM 01 — Como ter um estilo inspirado na moda coreana com Pamela Rejane @pamrej
  2. TTUM 02 — a construção do estilo pessoal de um jeito criativo com Vanessa @algumavanessa
  3. TTUM 03 – assumindo os cabelos brancos com Luciene Gomes (mãe).

Recomendo fortemente que vocês adicionem também a leitura de vocês o livro da Carla Lemos, Use a moda a seu favor, pois foi através dele que aprendi e pude ver a moda sendo escrita por um viés feminista e empoderador. Além é claro do livro da Naomi Wolf, cujo a Carla também menciona no trecho acima, O mito da Beleza.


Deixo também aqui, uma ideia que tomou conta de mim durante todo o processo de pesquisa para o desenvolvimento dessa conversa que foi uma pergunta feita a mim mesma “Quantas mulheres fora do padrão eu sigo em minhas redes sociais e consumo seus conteúdos ?”. Eu de fato já seguia algumas, mas conheci perfis incríveis, de mulheres revolucionárias na moda plus, definitivamente algumas viraram minhas girl crush da vida e não largo mais.


Espero que tenham gostado e até a próxima!


com amor,
sua consultora de estilo
Clara Rocha.


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